sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Alexandre Soares Silva

Alexandre Soares Silva é o melhor blogueiro brasileiro. Junto com Diogo Mainardi, Soares Silva é a pessoa que mais entende de literatura inglesa no Brasil. João Pereira Coutinho lembra muito o estilo do Alexandre Soares Silva.
Alexandre é brilhante escrevendo tanto sobre literatura quanto sobre politica. De tudo o que foi publicado sobre a eleição de Obama, paradoxalmente, o melhor texto foi escrito em 2003 por Soares Silva. O texto trata do antiamericanismo difuso na sociedade. Segue abaixo o texto.
Alexandre Soares Silva
Antiamericanismo
O antiamericanismo é o antisemitismo moderno. As pessoas vêem filmes de nazistas e acham aquilo absurdo, como se não fossem capazes de sentir a mesma coisa. Mas são. Simplesmente aprenderam que o antisemitismo é feio, e escolheram outro povo pra odiar.
Não é político. Eles podem dizer que odeiam Washington, não o povo americano; mas na mente e nos jornais deles Bush virou uma caricatura tão vil quanto a que os nazistas faziam dos judeus. E toda a imagem que fazem dos americanos - gordura, hambúrguer, serial killers - é racista. E o jeito com que pessoas (que se consideram boas) comemoraram a kristallmorgen de 11 de setembro! Prevejo Daschaus contra americanos – celebradas por franceses em livros que serão resenhados favoravelmente pela Caros Amigos e pela Folha também, e pela TV Cultura. E a capa da Veja será, Eles Fizeram Por Merecer. Ou talvez A Fúria Justa.
A diferença, dizem eles, é que os judeus foram vítimas inocentes, os americanos são culpados vis. Como se os nazistas não se achassem vítimas da opressão judaica. Era exatamente assim que se achavam: vítimas da opressão judaica. Não há diferença entre o ódio de Eichmann e o ódio de José Arbex. Havia uma suposta opressão cultural - o intelectualismo judeu antes, o infantilismo americano agora - e uma suposta opressão político financeira - os marionetes judaicos em Washington antes, e os marionetes americanos em Israel agora. As duas expressões antisemitas em itálico são de Goebbels e Hitler. As duas expressões antiamericanas em itálico estão nos jornais todos os dias.
Olhem, a romancista Margaret Drabble escreveu isto num
jornal:
"My anti-Americanism has become almost uncontrollable. It has possessed me, like a disease. It rises up in my throat like acid reflux, that fashionable American sickness. (…)There, I have said it. I have tried to control my anti-Americanism, remembering the many Americans that I know and respect, but I can't keep it down any longer. I detest Disneyfication, I detest Coca-Cola, I detest burgers, I detest sentimental and violent Hollywood movies that tell lies about history. I detest American imperialism, American infantilism, and American triumphalism about victories it didn't even win."
Agora substituam antiamericanismo por antisemitismo, americanos por judeus. Fica mais ou menos assim:
“Meu antisemitismo se tornou quase incontrolável. Ele tomou conta de mim, como uma doença. Ele sobe na minha garganta como refluxo gástrico, essa doença judaica da moda. Pronto, eu disse. Tentei controlar meu antisemitismo, lembrando de vários judeus que eu conheço e respeito, mas não consigo me controlar mais. Detesto todo tipo de talmudização da cultura, detesto bagels, detesto falafels, detesto a arte degenerada dos pintores judeus, que mentem sobre a natureza humana. Detesto o cartel judaico, a esperteza judaica, e a alegria dos judeus a respeito de um domínio político-financeiro na Europa, quando na verdade esse domínio pode muito bem ser revertido se agirmos a tempo.”
Tudo o que fiz foi trocar um povo pelo outro, um clichê pelo outro, e uma paranóia pela outra. Se a segunda versão parece muito mais horrível do que a primeira, é porque agora é ok odiar os americanos, está liberado. Não era assim que os alemães se sentiam em relação aos judeus?
Realmente acho que se algum dia houver uma juventude hitlerista (claro, com outro nome) no Brasil, contra os americanos, ela vai buscar membros através da MTV e da revista Trip. Raspe a canela e o tênis de um jovem numa passeata, e verá que é um trompe-l´oeil pintado sobre botas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama


Será mesmo que eu vou ter que escrever sobre a vitória do Obama? Não existe assunto que me dê mais preguiça! Não consigo entender que pessoas de outros países comemorem tanto a vitória de um presidente americano.
Hoje na Universidade, parecia que a seleção italiana tinha vencido a copa. Todos lendo os jornais em busca de mais uma frase do grande orador, do homem que mudará o mundo. Essa minha preguiça não tem nada a ver com o fato de ter escrito que McCain seria eleito[Fogo de Palha]. Os americanos preferiram um patife, pior pra eles. A verdade é que tenho preguiça de ilusões. Já não acredito mais em Papai Noel, fada madrinha, Sasa Mutema e muito menos em salvadores da pátria.
Amanhã o mundo continuará o mesmo. Talvez um pouco melhor, talvez um pouco pior. Tendo a achar que um pouco melhor. O governo de Barack Obama representará o fim de ilusões. Assim como nós, brasileiros, ficamos um pouco mais maduros politicamente, com a presidência do Primata Presidencial , os americanos também ficarão. Obama é simplesmente um Lula graduado em Harvad.
Um usou a condição social como escudo à criticas, e o outro a questão racial. Qualquer pergunta era vista como preconceito. Mas ao contrário do nosso que foi financiado a vida inteira por um partido, Obama teve sua carreira acadêmica financiada por Khalid al-Mansur. al-Mansur representa os interesses do príncipe saudita Alwaleed, nos Estados Unidos. Alwalled se tornou famoso quando teve a sua doação de dez milhões de dólares, à cidade de Nova York, recusada pelo ex-prefeito Rudolph Giuliani. Na época, Giulian alegou que não poderia aceitar a doação de alguém que tinha afirmado que o 11/09 era apenas uma resposta às políticas americanas pró-Israel.
A relação entre Obama e al-Mansur já seria suficiente para não se votar em Obama. Eu pouco me importo se ele é negro, mameluco, branco, amarelo. O que me preocupa é que as pessoas simplesmente deixaram de prestar atenção aos fatos. Ficaram abobadas, anestesiadas. E a realidade é que Obama nunca se preocupou em responder as dúvidas que pairam sobre o seu passado. O advogado Philip Berg, entrou na justiça para que Obama mostrasse a sua certidão de nascimento. Existe uma forte suspeita de que Obama, não tenha nascido nos Estados Unidos, o que o tornaria inelegível. Obama ao invés de acabar logo com a discussão e mostrar a porcaria do documento preferiu recorrer a artimanhas jurídicas. Eu tenho a ligeira impressão que dá muito menos trabalho contratar um despachante que um advogado.
Apesar disso tudo, acho que essa eleição serviu para uma coisa. Ficou claro que Arnaldo Jabor já deu o que tinha que dar. Tenho dois livros de Jabor, gosto de seus filmes e durante muito tempo o tive como um grande analista . Mas acho que ele cansou de escrever, de pensar. O seu artigo de ontem no Estadão é deprimente, patético. Não consigo acreditar, que a mesma pessoa que escreve isso: " a perua careta e despreparada Sarah Palin, que seria a 'boceta de Pandora' final para o mundo, a mulher de onde sairiam todos os males. McCain é prosa e Obama é poesia" possa ter escrito uma das melhores resenhas do livro Os Deuses de Hoje do Bruno Tolentino. Caro Jabor, volte a filmar.
O espírito dessa campanha pode ser resumido pelo vídeo que vai abaixo.

Mudanças na América. Só nos resta saber quais serão.

Há 50 anos os EUA segregavam legalmente os negros, e hoje eles elegeram, com grande diferença de votos, um presidente afro-descendente. A vitória de Obama mostrou a insatisfação do país com a política atual e o quanto eles clamam por mudança. Ao contrário do que muitos imaginavam (por exemplo, João Pereira Coutinho em post logo abaixo) os EUA derrubaram a teoria de que nas urnas o real espírito americano é racista. Uma vitória que ficará para história, não só por ser um candidato negro, mas pela conquista do partido democrata em estados de tradição republicana.
O que me pergunto agora é como será esse novo governo. Durante a campanha os veículos do mundo inteiro (exceto de Israel) foram claros em sua campanha a favor de Obama. Meses atrás, não me lembro ao certo quantos, a revista Piauí divulgou uma matéria com o perfil do democrata que descrevia um herói. Um homem, que superou uma origem difícil, foi o primeiro negro a presidir a publicação jurídica em Harvard e que agora buscava o cargo de maior importância na política mundial. Grande parte da mídia (televisiva e impressa) brasileira idealizou o candidato Barack Obama. O espaço destinado ao candidato democrata era vezes maior se comparado as matérias relacionadas a John McCain. Confesso que também fui contaminada por este espírito. Depois de tanto ouvir falar no brilhantismo de Obama passei a acreditar na imagem diplomática do candidato.
Para o Brasil resta saber até que ponto o caráter democrático e negociador de Obama trará bons resultados ao país. O presidente Lula foi claro ao mostrar sua preferência democrata, “Da mesma forma como o Brasil elegeu um metalúrgico e a Bolívia elegeu um índio, seria um avanço cultural a vitória de um negro na maior economia do mundo". Eu só espero que Obama não siga a mesma trajetória dos candidatos citados pelo nosso presidente.
Opiniões se dividem a respeito de qual candidato seria melhor para o Brasil. Na prática, McCain traria resultados mais rápidos já que é um defensor do livre comércio, ao contrário de Obama que é contra medidas que prejudicariam, por exemplo, a entrada do nosso etanol nos EUA.
A grande esperança mundial inclusive brasileira, é que Obama, como um político democrático e mais aberto ao diálogo, possa reatar laços diplomáticos com o mundo. Transformar a figura autoritária dos EUA e do governo Bush em um país mais aberto. Paris fez campanha “Goodbye George”. O que a comunidade européia espera agora é que o país seja um aliado mais próximo na luta contra novos desafios, que não são poucos, começando pela situação atual dos EUA.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bruno Tolentino

O que vai abaixo é um trecho do apêndice do livro "A Balada do Cárcere" de Bruno Tolentino. Como escreveu Bandeira,"Uns tomam éter, outros cocaína./Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria". Eu ao contrario tomo Tolentino.

" A vida é cruel. Manuel e Noel, Drummond e Caymmi, não deveriam nunca envelhecer. Mas o fato è que guardamos nossas jóias e nossas cartas de amor com o mesmo deslumbramento, mas em estojos separados; e quando os vamos abrir, no primeiro deles achamos exatamente o mesmo valor, o mesmo brilho, realçado pela patina do tempo; mas no outro encontramos a tinta esmaecida, o papel amarelado, em suma, a palidez desbotada daquilo que tanto amávamos,que um dia nos resumiu e que de repente se tornou quase irreconhecível, quase ilegível, doce apenas como a vaga lembrança da emoção de um tempo que se foi como um assovio na noite ..."
Bruno Tolentino

domingo, 2 de novembro de 2008

terça-feira, 28 de outubro de 2008

acda en de munnik

Aproveitando o clima musical do blog. Gostaria de postar um música de uma banda holandesa que se chama Acda en de Munnik. A banda já existe desde 1997 e possui 12 discos.
A música deste vídeo de chama "Niet of nooit geweest", o que em português quer dizer algo como eu estive ou não estive. A letra da música se refere aos desencontros entre as pessoas.
Indico esse grupo não tanto pela qualidade poética de suas composições, mas pelo o que eles representam hoje dentro da Holanda e pelo ritmo de suas melodias.

Danielle Queiroz



Danielle Queiroz

Franco Battiato

Publicarei, sempre que possível, vídeos que mostrem cantores italianos contemporâneos pouco conhecidos no Brasil. Esta semana é Franco Battiato . Na minha opinião, é o maior cantor italiano contemporâneo e um dos grandes artistas mundiais.
Acho que Battiato representa na Itália o mesmo que Caetano no Brasil. Tentei escolher uma única musica mas não consegui. Por isso publico dois vídeos de Battiato .
Battiato representa a Itália que amo e aprendi a amar; longe da Itália da intolerância e do fascismo berslusconiano.

Espero que gostem.



segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Aeciopimentelmarciolulaserrakassabmartagabeirapaespt


Pode-se dizer que Aécio Neves saiu mais enfraquecido na campanha vitoriosa de Márcio Lacerda (Lacerda terminou com 59,12% dos votos, enquanto Quintão ficou com 48,88%) para o cargo de prefeito de Belo Horizonte. Simples. A vitória esperada por Aécio era já no primeiro turno. Isso todos nós sabemos. Quem não sabe disso não conhece o que se passa no cenário político brasileiro ,ou, está de inteira gozação.
Outro que perdeu com isso – e olhe, poderia ter perdido mais...muito mais- foi o atual prefeito, Fernando Pimentel. Ele que está contando os dias para entregar a prefeitura para Lacerda, deve ter rezado muito para sei lá qual santo pedindo a vitória do socialista.
Por que os dois perderam? Essa tese que o político com excelente aprovação junto a população poderia se quiser eleger um poste, caiu de joelhos. Assim tanto Pimentel quanto Aécio sofreram muitos arranhões em seus respectivos joelhos. E o Lula então...melhor nem falar!
José Serra está muito confortável com a vitoria do seu ex-vice-prefeito, Gilberto Kassab (60,72%). O clima lá em São Paulo está colorido -leitor não ache que eu estou induzindo algo ao “colorido”, não sou pilantra como os petistas foram na campanha da Marta Suplicy (39,28%)- , os tucanos estão satisfeitos com os democratas e vice-versa. No Rio, o pessoal preferiu curtir o feriado de última hora a votar. 20,25% foi o número de abstenções nessa cidade. Depois companheiros cariocas não reclamem. Eduardo Paes (PMDB) 50.83% a Gabeira (PV) 49.17%.
Dúvida: existe PT em Minas? Onde? No Lixão? No João XXIII?Ah, sim... no cemitério! Mas qual?
Fábio Saldanha

domingo, 26 de outubro de 2008

Laços

Sempre tive um enorme preconceito à novas tecnologias. Sou relutante em aceitar a mistura entre arte e tecnologia. Demorei muito tempo para começar a usar Internet . Sou um cristão novo de msn, por exemplo.
Nunca tive muita paciência com nada que fosse ligado à Internet - tecnologia essas coisas . Achava que YouTube era uma perda de tempo. Quando me contavam de vídeos feitos para o YouTube tinha náuseas.
Até que vi o vídeo que vai abaixo. Laços é um curta metragem com roteiro de Adriana Falcão e atuação de Clarice Falcão . Foi o vencedor de um concurso mundial de curta-metragens realizado pelo google.


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Mino Carta

Alguém ainda lê Carta Capital? Pensava que além dos estudantes de jornalismo e dos leitores de segundo caderno ninguém mais dava bola para a revista do gourmet - disfarçado de jornalista - Mino Carta. Estava enganado.
Roberto Requião - o nosso Bolanõs - declarou que lê apenas Carta Capital. De acordo com o humorista involuntário Carta Capital é a única revista verdadeiramente independente, que não fica mudando de anunciante. Requião está coberto de razão. Carta Capital possui um único anunciante - o Governo Federal. A relação entre a revista e o Governo Federal é tão esdrúxula que chega ao cúmulo de filiados do PT obterem descontos na assinatura da revista. Isso mesmo! Filiados do Partido do Trambique ganham 50% de desconto na assinatura do semanário. Isso sim é independência!
Abaixo uma foto de Mino Carta com o seu anunciante, ou melhor, financiador. Financiador como se sabe, deve ser tratado a pão-de-ló.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O ator e o dublê

"É curioso, mas nossa cultura política atual tende a repudiar o acirramento dos embates eleitorais, como se quem o propusesse cometesse um pecado", escreveu [15/10] o diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, em artigo publicado pelo jornal Estado de Minas. "Espera-se dos candidatos uma espécie de falsa cordialidade, o tal debate em alto nível". Concordo com Coimbra. Apesar de ele ter aquele jeito songa-monga de falar, Coimbra foi feliz em evidenciar essa prática que é totalmente natural em disputas políticas. Se não, vejamos: numa das democracias mais sólidas do mundo, a americana [lógico], embates em eleições são feitos sem a desculpa esfarrapada de serem taxadas como de baixo nível. Sarah Pallin diz que Obama é amigo de terrorista. Se isso é verdade ou não, ou se é certo ou não, fica a cargo do eleitor. E se a pessoa se sentir ofendida [nesse caso Obama], que procure ela o caminho legal – a lei.

Estou enrolando, mas foi por uma boa causa. Ontem à noite aconteceu mais um debate entre os candidatos à prefeitura de Belo Horizonte na TV Alterosa. Este já deve ter sido o debate de número... Sei lá eu.

Já na porta via-se uma movimentação de torcidas organizadas [leia-se: pessoas pagas para torcer] de ambos os candidatos. Ah! Devo dizer que a minha presença no debate surgiu de um convite que a própria emissora fez aos alunos de jornalismo de todas as faculdades de BH. A entrada no local onde houve a transmissão do debate foi muito tumultuada. Estudante sofre! Enfim, depois de esperar mais de trinta minutos sob forte calor humano, consegui sentar em meu lugar na platéia. Antes de começar, um funcionário da casa pediu que o público não se manifestasse em momento algum, pois poderiam ser convidados a se retirar com a ajuda singela dos seguranças.

O debate começou com uma pergunta sobre esporte. Nada demais. Depois, outra pergunta sobre o metrô. Até então os dois candidatos ficaram em seus púlpitos respondendo às perguntas dos jornalistas convidados. Na segunda pergunta, feita pelo editor de política do Estado de Minas, Baptista Chagas de Almeida, uma surpresa: Leonardo Quintão tirou o microfone do suporte e saiu do seu lugar para ficar andando de um lado para o outro. Márcio Lacerda ficou parado – piscando sem parar. Ele não aproveitou o momento para mostrar que também estava à vontade como Quintão.

Não demorou muito para que o clima começasse a mudar no debate. Com uma pergunta sobre o envolvimento de Márcio Lacerda no caso do mensalão, Quintão abriu o segundo bloco. Lacerda enfim saiu de sua posição de poste. Pegou o microfone sem fio e movimentou-se com pouca desenvoltura, lembrando uma imitação de Sinatra. Ao invés de cantar, ele procurou defender-se das acusações do seu oponente. Quintão adotou um tom de voz ríspido todas as vezes em que respondeu a Lacerda. O peemedebista usava de sua retórica política para responder e devolver as perguntas a Márcio. Em uma destas, Quintão, interpelou-o com a seguinte indagação: "O senhor candidato, se considera de centro-esquerda ou de direita?" Lacerda disse que era de centro esquerda. Aí a coisa desandou. Ainda nesse tema, o socialista falou que direita era o DEM [de Gustavo Valadares, filho do ZIZA]. Quintão argumentou que a candidatura de Márcio tinha o apoio do democrata Gustavo Valadares, e por isso ele não poderia se dizer de centro-esquerda. Márcio se enrolou e piscou mais ainda. Disse que os Democratas estavam livres para apoiar quem eles quisessem assim que terminasse a votação do primeiro turno. Valadares, segundo Lacerda, o procurou para dar seu apoio. Até aí tudo bem, mas quando Lacerda foi tocar no assunto de sua aliança com o PT de Fernando Pimentel, não foi nada feliz. Partindo do pressuposto de que Pimentel é centro-esquerdista, Lacerda derrapou ao desqualificar uma parcela que ele classificou como facções radicais do PT mineiro. Quintão não pensou duas vezes ao fazer sua réplica; lembrou que no PT mineiro ele tinha conhecido muita gente boa, no tempo das eleições de 2006. Falou muito em nomes como Patrus Ananias, Luiz Dulci e Lula. Disse que boa parte do PT está com ele por não aceitar as imposições "autoritárias" de Pimentel. Essa doeu até em mim.

No início do terceiro bloco, Márcio não reparou que o assistente de palco colocou um banquinho ao seu lado. Foi até alertado pelo apresentador/mediador sobre a novidade. Um momento em que até eu não consegui me segurar e caí na gargalhada. Depois disso, Márcio respondeu rápido a uma pergunta sem muita relevância de Quintão, e aproveitou o tempo que lhe restava para falar e se defender mais sobre o mensalão. Disse que Quintão estava usando esse tema porque estava desesperado. Ratificou que nunca teve o nome sequer relatado nos autos do processo. E atacou logo em seguida. Disse que era melhor o outro candidato se preocupar com as fraudes em Ipatinga, onde seu pai, Sebastião Quintão, foi prefeito. Quintão ficou muito incomodado com a fala do adversário. Realmente, processo não é um assunto agradável para os dois.

Enquanto a troca de acusações comia solta, as regras para a platéia foram quebradas. Me senti em pleno Mineirão em dia de Atlético e Cruzeiro. Eram vaias para lá, vaias para cá, uma bagunça. O mediador até pediu que fossem cumpridas as regras, mas não adiantou muito. Em uma das cadeiras acima de onde eu estava, tinha uma trinca de meninas de uma faculdade suspeita [aqui vai o auge de minha polidez]. Não paravam de falar em momento algum! Colegas de curso [e de blog] que sentaram na mesma fileira que eu, não estavam mais agüentando tanta sandices pronunciadas pelo trio. Era um "Quintão você é lindo", "Ai! Minha mãe também gosta de você" entre outros absurdos. A cereja do bolo eram as ligações que uma das moças fazia para a mãe, em casa, durante os intervalos, para saber se ela havia aparecido em cada bloco do programa. Um outro companheiro de blog, que acompanhou o debate pela TV, disse que não ouviu muitos sons vindos da platéia. Só vira uma mulher que toda vez que era focalizada no enquadramento do apresentador aparecia um pouco sonolenta.

No último bloco antes das considerações finais, Quintão começou com tudo para cima de Lacerda. O tema era acessibilidade. Numa outra pergunta, Lacerda dissera que Quintão votou contra um projeto de lei que melhoraria a vida de pessoas com deficiência física, e que por isso não era uma pessoa solidária. Quintão devolveu a pergunta com um sorriso irônico, e falou que o candidato não sabia nada do que estava falando, pois nunca foi um parlamentar. E que o que aconteceu na verdade não passava nem perto “do real”. Fiquei sem entender!

Quintão abordou o tema das campanhas clandestinas. Agora é a vez de Márcio fazer uso da pergunta de Quintão; este havia perguntado àquele sobre a campanha clandestina de que vinha sendo vítima, e indagado se o adversário aprovava estas táticas. Lacerda disse que também sofre com campanhas clandestinas, mas ponderou que ele está processando o seu adversário na justiça por esse tipo de atitude. E mandou um recado junto em meio a resposta: alertou Quintão para que, caso ele se sinta prejudicado, que utilize também os meios legais. Aplausos. A trinca feminina às minhas costas não aprovou a fala de Lacerda.

Ao passo que outras perguntas foram surgindo e sendo respondidas, o último bloco terminava com saldo positivo. Não aceito a pecha de baixo nível dada pela maioria da imprensa para o debate. Não. Foi um momento onde se discutiu tudo o que o eleitorado deve saber, entre propostas de governo e a vida pregressa de cada candidato. Debate "de alto nível" é uma completa falácia; um eufemismo para conchavo entre comadres que não se gostam.

Considerações finais. Márcio Lacerda: "Não sou melhor ator que o outro candidato, mas sou melhor administrador”. Quintão devolve: "O Candidato disse que eu sou melhor ator, então ele é melhor dublê". Fui embora preocupado em como chegar em casa. Ônibus de madrugada é quase uma visão de outro mundo. Fui de táxi.

PS: Nesta sexta teremos o último debate, de número sei-lá-eu, antes do pleito no Domingo. Na Rede Globo. Sem platéia, e sem a trinca.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Do blog do Reinaldo Azevedo



O que vai acima é trecho do debate da Band, na semana passada, entre Márcio Lacerda (PSB) — o candidato de Aécio Neves, Fernando Pimentel e Ciro Gomes à Prefeitura de Belo Horizonte — e o peemedebista Leonardo Quintão. Dado o título do vídeo, parece ter sido postado por algum simpatizante de Lacerda. Se for, trata-se de alguém que não está entendendo direito o que está em curso. Não sei como foi o debate de ontem.

Na semana passada, achando que estava tendo uma grande sacada, Lacerda pergunta se o adversário acreditava nas acusações de Jô Moraes, candidata do PC do B derrotada no primeiro turno e agora apoiando Quintão. Jô acusava Lacerda de envolvimento com o mensalão. A resposta do peemedebista é uma espécie de emblema do “mineirin isperto” e de sua ascensão nas pesquisas.

Quintão diz o seguinte, nessa ordem:
- “Tenho muito respeito pelo senhor” (moço educado);
- “O Sr. tem idade para ser meu pai” (faz o eleitor comparar a sua aparência de galã de quermesse com a figura do outro, vetusta e cinzenta, de cara sempre fechada);
- “Quem tem de acreditar ou não é o eleitor, não sou eu” (bem no fígado);
- “Eu, pessoalmente, respeito o senhor. Não sei da vida do senhor porque eu não o conhecia (aqui, chama a atenção para o fato óbvio de que quase ninguém, em Belo Horizonte conhecia Lacerda, candidato inventado por Aécio e Pimentel).

Mais: notem o acento, digamos, “acariocado” de Lacerda em contraste com o sotaque “mineirin” de Quintão. No interior, quando a gente vê um falso sonso, a gente diz: “Esse, de bobo só tem o andado”. Nós, os caipiras, alimentamos a lenda de que somos mais espertos do que os “almofadinha da cidade grande”, sabem cumé? É claro que se trata de uma lenda reativa, autodefensiva, mas convém não dar mole...

Permito-me um pequeno vôo, sem ambição teórica, mas com alguma história. Há todo um subgênero na chamada “música caipira” (nada a ver com esses breganejos) que trata desse confronto entre o dotô e o matuto — que sempre se dá bem no fim. Tião Carreiro e Pardinho, a dupla que se tornou referência da boa música de viola, explorou muito o tema. Leia, se quiser entender direito do que falo, a letra de Rei do Gado (dá até para ouvir a canção). Trata de um país que ainda tinha a maior parte da população no campo — e não do Brasil contemporâneo, com 80% na cidade — muito acima dos países europeus, por exemplo —, o que é um problema, não uma solução. Mas esse é assunto para outra hora. De volta.

Quintão, eu sei, é o falso matuto. Vem de uma família de políticos experimentados, estudou no exterior, é cobra criada. Eu ousaria dizer que aquele seu sotaque é coisa de mineiro imitando mineiro... Acontece que a eleição em Belo Horizonte se transformou num jogo de personalidades construídas — e ele só aproveitou a janela de oportunidades que lhe foi aberta por Aécio Neves e Fernando Pimentel. A dupla pode assistir ao insucesso de sua criação bastante original: o coronelismo urbano: “É pra votar neste aqui”. Sim, mas quem é esse? “Não importa, a gente tá mandando”. Há o risco de Aécio ver a tal “aliança inédita” ir para o brejo e de Pimentel entregar ao PMDB 16 anos de administração petista. Por que falo em jogo de aparências? Porque Lacerda foi apresentado como a solução técnica, “o” administrador que, vá lá, deveria apenas ser homologado por uma disputa eleitoral. Não funcionou. Muita gente diz: "Quintão é a pior solução para Belo Horizonte". É? Que chance Aécio e Pimentel deram à população de escolher a melhor?

O vídeo acima demonstra que Lacerda até pode ser o “ó do borogodó” em administração, mas é ruim de política pra chuchu. Imaginar que o adversário vai lhe passar um atestado de boa conduta expõe a sua principal ingenuidade: achar que o oponente é tonto. E, como se vê, de tonto não tem nem o sotaque, também ele peça de marketing.

Não conheço em detalhes a administração de Belo Horizonte e as reais potencialidades de Lacerda e Quintão. É até possível que a solução de continuidade seja a preferível para a cidade. Mas, se não acontecer, a culpa é de Aécio e Pimentel. Os dois, sozinhos, acharam que podiam substituir o povo. E o povo erra e acerta, mas não tem substituto. Ou tem: ditadura. Uma péssima substituição.

E notem. A eleição em Belo Horizonte tem sido tão surpreendente, que pode dar qualquer coisa por lá, inclusive a virada de Lacerda. Vejam que curioso: só há essa trajetória de solavancos porque há algo de profundamente antinatural na disputa — considerando que a naturalidade é a democracia, que compreende a construção de candidaturas ao longo do tempo — jamais paridos no bolso do colete.

Mesmo que o ungido pelos caciques vire o jogo, a lição está dada: ninguém deve votar em lugar do povo.

Hoje terá mais um debate entre os canditados à prefeitura de Belo Horizonte na tv Alterosa (22:30H). Estarei lá para fazer a cobertura para o blog. Volto amanhã com o que aconteceu nesse debate. Fábio Saldanha

terça-feira, 21 de outubro de 2008

McCain

João Pereira Coutinho é o melhor colunista da Folha de São Paulo. Possui o melhor texto, o mais fluido. Deve ser porque é português.
Quase sempre concordo com o que Coutinho escreve .E concordo ainda mais quando ele escreve um texto corroborando aquilo que escrevi ontem no blog .
Afirmei que McCain será o novo presidente dos Estados Unidos, e hoje Coutinho faz uma coluna mostrando a razão pela qual Obama não será eleito .
Publico na integra o texto de Coutinho.

John McCain, presidente

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

ALGUNS COLUNISTAS não têm vergonha na cara. Felizmente, sou um deles. Em dezembro de 2007, quando o mundo apostava em eleições presidenciais americanas entre Rudy Giuliani (republicano) e Hillary Clinton (democrata), eu olhei para a minha bola de cristal e disse, com certeza cósmica: McCain vencerá. Lembram? Escrevi aqui e recebi assobios de volta.
Muita água passou debaixo da ponte. McCain foi o candidato republicano. Mas as pesquisas atuais são esmagadoras para McCain. Sete pontos de desvantagem são sete pontos de desvantagem. E perder Estados-chave (como a Flórida ou a Virgínia) praticamente resolve a questão presidencial a favor de Barack Obama. E agora, Coutinho?
Agora, volto a olhar para a minha bola de cristal, e McCain continua vencendo. Os leitores não acreditam no colunista? O colunista vai tentar convencer os leitores.
Sim, qualquer jornal diz o óbvio: McCain falhou em dois momentos essenciais. Falhou na crise financeira e nos debates televisivos.
Na crise, McCain falhou na forma inicial como lidou com ela: ao suspender a campanha eleitoral e ao ameaçar não comparecer ao primeiro debate, o comportamento de McCain não foi entendido como politicamente responsável, mas como oportunista e errático. McCain começou a sangrar nesse preciso momento, quando ainda liderava nas pesquisas.
E os debates? Os debates não foram meigos para McCain. Substancialmente, McCain venceu os três: é o mais preparado em política externa e, economicamente falando, a América não se salva com mais Estado; salva-se com melhor Estado, ou seja, com uma administração que seja capaz de não interferir abusivamente no mercado em nome de uma agenda "social".
Mas Obama venceu porque televisão é imagem, e imagem é poder. Ele é jovem, retoricamente hábil e um crítico de Bush; McCain é velho, fisicamente limitado e injustamente colado a Bush.
Apesar de tudo, mantenho minha aposta em McCain. E mantenho minha aposta porque as pesquisas não merecem confiança. Os republicanos sempre se deram mal com elas. Em 1980, dez dias antes da eleição, Reagan (39%) perdia para Carter (47%). Dez dias depois, Reagan vencia Carter. Os analistas dizem que o caso só é explicável pela crise dos reféns americanos na embaixada de Teerã, que Carter não soube resolver. Verdade.
Mas existe um padrão nas pesquisas dos últimos 30 anos, que sempre foram tradicionalmente benevolentes para com os democratas. Será preciso relembrar as pesquisas de 2000, quando Al Gore vencia Bush?
Ou a vitória virtual de John Kerry sobre o mesmo Bush em 2004? Deu no que deu.
A juntar a tudo isso, Obama é negro. Eu sei que não é politicamente correto relembrar o fato. Mas conto uma história para sossegar os ânimos: em 1982, Tom Bradley era candidato a governador da Califórnia. Bradley liderava nas pesquisas com margem confortável. Bradley era negro. No dia da votação, Bradley perdia para George Deukmejian, o candidato branco.Moral da história? Existe um racismo escondido que diz uma coisa para as pesquisas e outra para o boletim de voto. Os números atuais não refletem os cinco pontos (mínimo) que o "efeito Bradley" costuma roubar ao candidato negro.
E se os especialistas afirmam, com infundada certeza, que a América está menos racista do que em 1982, é necessário recordar um pormenor básico: desde então não houve uma oportunidade séria para testar esse otimismo. Como disse recentemente Edward Luce, colunista do "Financial Times", os políticos negros que são eleitos nos EUA representam apenas eleitorados igualmente afro-americanos. Jogar em casa não vale.As pesquisas devem ser lidas com ceticismo. E se McCain, até dia 4/11, mostrar que é o líder mais preparado e experiente para levantar a economia americana sem um assalto abusivo ao bolso dos contribuintes; e se conseguir reconquistar o centro moderado sem alienar a falange direitista dos republicanos, o mundo inteiro que já elegeu Obama para a Casa Branca vai abrir a boca de espanto e horror.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Fogo de Palha

Parece que o azarão do primeiro turno não vai ganhar. Era só fogo de palha. Sei que estou correndo um grande risco ao apostar no fóssil vivo do Márcio Lacerda. E tenho a convicção que John McCain será o próximo presidente norte-americano.
Hoje tive uma discussão com o Fábio sobre a legitimidade ou não da candidatura do Márcio Lacerda. Somos de opiniões contarias, talvez até pelo fato de não estar em Belo Horizonte. Pode ser que realmente eu não tenha a noção exata do que esteja acontecendo nesta eleição.Não obstante, acho que o ex-companheiro da Dilma Roussef ganhará. O povo é tonto, mas nem tanto. Esse falso sotaque de caipira, esse jeito de bom moço não engana mais. Se é verdade que o Márcio Lacerda era um desconhecido, o tal do Quintão não era lá muito conhecido. Eu por exemplo não o conhecia, e como diria Paulo Francis "se eu não conheço è por que não importa".
Se Quintão realmente perder não terá sido por falta do apoio e do voto dos jovens. Se existe uma parcela particularmente idiota da população essa parcela é a juventude. Como adolescente é estúpido! De acordo com o Datafolha, Quintão tem a preferência de 55% dos eleitores com idade entre 16 e 24 anos.
Esse dado me fez lembrar um artigo do filósofo Olavo de Carvalho. Em seu artigo, publicado em 1998, Olavo desconstroi a suposta beleza da juventude. O artigo é relativamente longo para ser publicado em um blog, por isso transcrevo somente um trecho. “Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior. Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum."

domingo, 19 de outubro de 2008

Velhos preconceitos

A liberdade de criação do mundo contemporâneo às vezes me impressiona. Já é algo dito e conhecido que conceituar alguma produção artística atualmente é uma tarefa difícil. Unir dentro de um mesmo produto pensamentos e vertentes totalmente distintos até opostos é o mais comum entre artistas contemporâneos.
Neste contexto, fui pesquisar sobre a comédia stand-up. Gênero criado e consagrado nos EUA começa a ganhar espaço nos palcos brasileiros. Belo Horizonte possui um único grupo destinado a este gênero.
Ao pensar em comédia stand-up gostaria de ligar este estilo humorístico a improvisação teatral. Mostrar as semelhanças e diferenças entre dois gêneros que para muitos podem parecer a mesma coisa.
A comédia stand-up ou comédia de pé assemelha-se a um bate papo, onde o “ator”, que necessariamente não passou por escolas de teatro, aborda temas cotidianos. O humorista não faz uso de figurino, maquiagem ou qualquer recurso cenográfico. A naturalidade da comédia de pé nos passa uma idéia de improviso. Entretanto não é bem assim que acontece. O ator deste gênero utiliza de um pré-roteiro que guia seu show. O improviso existe no stand-up, porém não se desenvolve a partir dele.
Primeiramente conversei com um grupo argentino de improvisação. Ao ser perguntado sobre a relação entre os dois gêneros, o diretor do grupo deixou bem claro que a comédia stand-up era algo muito distinto da improvisação teatral. Saí da conversa acreditando ser impossível estabelecer uma ponte entre os dois assuntos.
Fui buscar outras fontes. Conversei com o grupo de comédia stand-up de BH e Walmir Ferreira que é professor de teatro.
Após todas as entrevistas percebi certo preconceito do meio artístico (“acadêmico”) em relação aos humoristas adeptos da comédia de pé. O que atrapalha o desenvolvimento e consagração do estilo.
Improvisar dentro do teatro é criar, “não há interpretação sem improvisação”. É o velho preconceito das academias em classificar o produto deles como superior ao popular.
A mesma situação se repete em outras manifestações artísticas como, por exemplo, o grafite. Neste caso muita coisa já mudou. A Bienal Internacional de Grafite mostrou isso. Já há uma movimentação forte para tornar o grafite uma forma de arte contemporânea.
Neste mundo nutrido pela diversidade, nos consideramos uma geração aberta ao novo. Porém, o que acontece na prática é que ainda cultivamos valores conservadores relacionados a coisas simples. Conceitos que tornam-se uma barreira para a criação artística.

sábado, 18 de outubro de 2008

García Márquez

Gabriel García Márquez anunciou que não escreverá mais. Disse que provavelmente não terminará sua autobiografia "Viver para Contar".
Não posso afirmar que estou particularmente triste. Acho García Márquez um escritor mediano - já estou esperando a resposta do Bossuet -, não muito superior a Jorge Amado por exemplo. Tenho a impressão de que daqui a cem anos não se falará muito em Gabo ou Amado.
Não que sejam ruins, são apenas medianos. Acho José Lins do Rego - ou até mesmo Rachel de Queiroz - superior a Jorge Amado. Lins do Rego, ele sim é o nosso grande memorialista. Para uma excelente análise dos romances regionalistas é obrigatória a leitura do livro "Polígono das Secas" de Diogo Mainardi.
E não acho que García Márquez seja superior ao peruano Mario Vargas Llosa, escritor que não recebe a devida atenção do público e da crítica. Talvez porque Llosa se recuse a bajular os ditadores latino americanos.
Na verdade não me interessa muito se García Márquez continuará a escrever ou não. Achei sua novela "Memórias de Minhas Putas Tristes" muito abaixo de seus outros livros. Não entendo essa obsessão que os escritores têm de sempre lançar um livro. Poucos são aqueles que conseguem manter o mesmo nível por muito tempo. Deveriam fazer como Raduan Nassar. Nassar escreveu duas obras primas da prosa moderna brasileira e depois foi criar galinhas. Ou então fazer como Bruno Tolentino que escreveu durante quarenta anos o seu grande livro "O Mundo Como Idéia". O livro que Tolentino escreveu mais rápido, creio eu, foi "Balada do Cárcere" e demorou uns onze anos .
Gabriel García Márquez disse que em alguns momentos sente depressão. Depressão que decorre do fato de sentir que tudo está acabando. Eu se fosse ele sentiria depressão por ter defendido a relatividade da vida humana enquanto comia caviar do mar Cáspio ao lado do comAndante

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Chiara Civello

O vídeo abaixo mostra Chiara Civello, uma das grandes cantoras italianas contemporâneas mas ainda pouco conhecida em seu país. Para quem acha que musica italiana se resume a Laura Pausini, Eros Ramzzotti ou Peppino di Capri vale a pena escutar Chiara Civello.

Mais uma do tocador de cavaquinho

Luís Nassif. Será que alguém ainda o leva a sério? Tenho a impressão que só o sindicato dos jornalistas de Belo Horizonte e o Moazhir ou seria Mozahir Salomão, sei lá eu , acreditam em algo do que Nassif escreve.

Um parêntese. Para quem não conhece Mozahir, ele é professor da PUCMinas . Também é o picotador oficial de papel durante palestras na universidade. Além de professor ele é secretário de comunicação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Acho que mais ninguém além das categorias supracitadas dá bola para copydesk de release. Digo categorias, porque Salomão[não o da Bíblia] representa toda uma "catchiguria" de pensamento.

Nassif, que além de achar que o jornalista Mário Sabino é o ghostwriter do colunista Reinaldo Azevedo, deu agora para se comparar ao mais novo prêmio nobel de economia .

Eu iria publicar somente o texto no qual o CTRL-C CTRL-V se compara a Paul Krugman, mas não é que Nassif consegue ser ainda mais ridículo! Ontem o dito cujo publicou um dos textos mais asquerosos da imprensa brasileira. Nunca vi um jornalista [Paulo Henrique Amorim não é jornalista] escrever um texto tão elogioso a um político como o que Nassif escreveu.

Abaixo reproduzo os dois textos. O site do músico disfarçado de jornalista é

http://www.projetobr.com.br/web/blog/5

O Nobel de Krugman

Por Luis Nassif

O Prêmio Nobel é de Paul Krugman, por suas pesquisas sobre o comércio internacional. E também pelo extraordinário bom senso e coragem de se antecipar a todos nas críticas a Alan Greenspan.

A propósito, lembro-me, logo depois do Real, de ter escrito um artigo mostrando que, após uma decisão de abertura econômica, leva um tempo para os países aumentarem as importações. Depois de uma pausa, dependendo do nível da abertura, haveria uma enxurrada.

O então Ministro do Planejamento José Serra me telefonou perguntando se estava acompanhando as pesquisas de Krugman em Harvard. Elas já chamavam a atenção do mundo acadêmico. Disse-lhe que não tinha a menor idéia sobre elas. Então, como tinha escrito aquele artigo?

Fui dar uma palestra para a Arcon, atacadista de Uberlândia. O país inteiro esperando que as importações começassem, para segurar as pressões de preços. Perguntei para os donos da empresa a razão da demora.

- É simples -, me disseram. Precisamos descobrir quais produtos interessam aos consumidores, entrar em contato com os fornecedores, aprender a importar, conseguir linhas de financiamento. Daqui a alguns meses, viremos com tudo.

Não havia nada de excepcional na minha análise. Apenas o fato de ter conversado com quem estava na linha de frente.


A articulação dos bagrinhos
Por Luis Nassif

Não sei se Lula será reconhecido como um dos maiores presidentes do país ou o homem que perdeu uma oportunidade histórica. O futuro dirá. Mas, garanto que nunca vi um presidente da República que trabalhasse tanto. Talvez Ernesto Geisel. Não tem um dia em que Lula não esteja em algum evento importante, aqui ou em qualquer parte do mundo. Aliás, se alguém puder levantar a agenda dele nos últimos 30 dias e colocar em um post da Comunidade do Blog, seria interessante para conferir.

Ontem estava na Índia.Segundo matéria de Sérgio Léo, no Valor , acertando a questão da cooperação com os indianos no aprimoramento do rebanho zebuíno. A pedido de Silvio Crestana, presidente da Embrapa, deu um aperto nos indianos, para que liberem o sêmen bovino.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Perigo Fascista 2

Hoje tinha programado escrever sobre outra coisa que não fosse política, fascismo e congêneres. Já tinha começado a fazer um texto sobre a poesia moderna persiana. Especificamente sobre a poesia do multi artista iraniano Abbas Kiarostami.
Durante anos fui um viciado em política. Boa parte da minha pequena biblioteca é formada por livros que tratam disso. Passava horas e horas lendo sobre partidos, instituições, esquerda, direita, marxismo e os ismos todos. Ficava irritado, discutia e perdia a paciência com a desonestidade intelectual de professores e a lavagem cerebral que se fazia nas salas de aula. Ao invés de nos ensinarem os rios que cortam o Brasil, aprendíamos que "De Fernando em Fernando o Brasil vai se ferrando".
Até que chegou uma hora que cansei disso. Tentei me concentrar no que realmente valia a pena. Tornei-me um obcecado por Bruno Tolentino, Fernando Pessoa, Manoel de Barros, Mário de Sá Carneiro. Tenho a impressão que isso explica um pouco a minha decisão de morar em Veneza. Morar em Veneza é como se ausentar do mundo, deste mundo. Veneza é impermeável a modernidade.
Mas claro que isso é uma ilusão. "Caelum, non animum mutand qui trans mare currunt". Os que cruzam o mar mudam de céu, não de espírito; Horácio. E por isso tento fazer como Ingmar Bergman ". Eu sempre soube atrelar meus demônios a minha carroça. Eles continuam me atormentando, mas eu os obrigo a me ser úteis."
Fiz essa digressão toda como uma forma de pedido de desculpas a mim mesmo, para poder comentar uma noticia.
Leio no Corriere della Sera, que a câmara de deputados italiana aprovou um projeto de lei que cria salas de aula exclusivamente para estrangeiros. Isso mesmo.
O projeto, de autoria do deputado Roberto Cota, prevê que os estudantes estrangeiros, que não possuem um bom domínio da língua italiana, devam estudar em uma classe separada. De acordo com o deputado, um dos lideres do partido xenófobo, Lega Nord, a falta de destreza dos imigrantes com a língua italiana prejudica o bom andamento das aulas e acaba por atrapalhar os garotos italianos.
É assustadora a velocidade com que a intolerância cresce na Itália. Propostas semelhantes como a do deputado Roberto Cota, até pouco tempo não eram nem levadas em consideração, faziam parte do folclore político. Tinham o mesmo valor que a bomba atômica do Enéas.
O que essa lei cria na prática são estudantes de primeira e segunda classe. O argumento dos que defendem a lei é que isso favorece uma real integração. Pergunto-me como pode existir integração sem um mínimo de contato. Onde mais o filho de um paquistanês pode aprender italiano senão em uma escola italiana, conversando com garotos italianos.
Além disso, a lei prevê que para um numero x de estudantes estrangeiros deve haver um percentual mínimo de italianos. Isso para evitar que uma sala de aula italiana tenha mais estudantes estrangeiros que italianos, mesmo que aqueles saibam a língua de Dante.
A Itália sempre foi um país de emigrantes. E não me consta que o governo Brasileiro tenha criado classes especificas para os filhos dos imigrantes. E foi justamente essa condição histórica italiana que permitiu que Bruno Tolentino escrevesse um dos seus mais belos poemas. Chiesa Dei Tolentini (Veneza 1567-1967)
Chiesa Dei Tolentini (Veneza 1567-1967)
Oculto reino nosso
onde cantam os ossos
daqueles cuja voz
ecoa em nosso eco,
e em cada um de nòs.
Nas lajes sem memòria
cruzam-se a luz do do dia
e o cantochão dos ossos :
irrequieta harmonia,
sepulto reino nosso
que em silencio te avias
rente às heras sombrias
e severas do púlpito.
Eco da luza canora.
Milagre oculto.
Só uma observação. Nas escolas alemãs os garotos italianos são, dentre os europeus, os que possuem o pior rendimento. Quem sabe não seria uma boa idéia a criação de uma classe especial para esses ragazzi. Uma coisa tipo Luziana Lanna. Pessoas diferentes precisam de métodos diferentes.